Passei o dia inteiro no meu quarto, procurando me entreter. Agora, perto do seu fim, vasculho o meu computador buscando algo novo para assistir ou alguém na Internet pra conversar. Infelizmente, não tenho êxito.
Passo então a ouvir uma música que lembra ele. Começo a chorar já na introdução.
- Meu Deus, não sei como vou aguentar isso... – Acabo dizendo para eu mesma.
Coloco a mão no meu rosto e tento prestar atenção na letra da música. É triste pelo significado, mas feliz pelo ritmo e melodia, o que se torna uma cereja num bolo recheado de ironia.
A música acaba. Respiro fundo, e um turbilhão de coisas tentam surgir ao mesmo tempo na minha cabeça.
Porém, tudo congela no momento que sinto alguém do meu lado e vejo de canto de olho uma mão encostar no meu ombro.
E por fim uma voz, dizendo:
- Ah, deixa disso.
Grito, tão alto que acaba por não sair som algum. Barulho mesmo é o que faço ao pular de cama e cair sentada no chão.
- Seu idiota, porque não me avisou que estava aqui?!
- Desculpa, não resisti – Diz o meu irmão, segurando um riso maldoso.
- O que quer aqui? – Questiono.
- Não posso vir ver minha irmã sem motivo?
Me preparo para o xingar por algum motivo, mas ele me interrompe antes d’eu começar:
- E nem posso somente saber por que ela está chorando?
Silêncio. Ele se senta na minha cama e estende a sua mão para eu levantar e sentar ao seu lado.
- Ah, desculpa... – Digo, ao perceber que ele não é o problema.
- Tudo bem... Bom, me diga então... Quem é ele?
Me surpreendo.
- Como você sabe? O que você sabe? – Pergunto.
- Eu não sei... Talvez eu só conheça você um pouco...
Olho para o chão.
- Curioso, você nunca pareceu se importar – Digo, me arrependendo pelo tom.
- Faz diferença agora? – Pergunta.
De fato, não faz.
- Bom... é só um cara da escola – Resolvo me abrir.
- E o que ele fez? Ou não fez?
- Ele vai embora. Vai servir no exército, vai ficar pelo menos um ano e meio em outra cidade.
- Sinto muito... Mas me diga, o que te incomoda mais, nisso tudo? Afinal, ele é só um cara da escola...
Engraçado, mas isso me faz olhar a coisa por um outro ângulo. Nem sei o que responder, e ele percebe isso na minha cara. E prossegue:
- Aliás, o que você mais vai sentir saudade, dele ou do que vocês tiveram?
Preciso ser sincera.
- Do que tivemos... Eu nunca achei que seria pra sempre com ele mesmo... É que...
- É que o que?
- Eu só queria que tivesse sido diferente.
- As coisas são o que tem que ser, você sabe disso.
Olho para ele e nem preciso dizer “desculpa” ou “obrigada”. Engraçado, pois nunca tivemos afinidade para entender as palavras um do outro sem que tenham sido ditas.
- Sabe, não há porque ter saudade do que sempre vai estar com você. Essas memórias sempre vão ficar aí.
- É, você tá certo...
Percebo mesmo o quanto tudo isso é realmente algo pequeno.
- Agora me diz, como vão o resto das coisas? A escola, o trabalho?
- Ah, a mesma monotonia de sempre.
- E isso é bom ou ruim?
- Acho que é bom. Quer dizer, está tudo voltando ao normal, sabe...
- Tem sido um ano difícil pra você, né?
- É, mas tá melhorando.
- Desculpa por isso.
- Ah, relaxa... tudo é o que tem que ser, não é mesmo?
Ele sorri.
Somos interrompidos por um barulho no corredor, e logo depois batidas na porta.
- O jantar tá pronto – Grita nossa mãe, batendo com força na porta com a mesma “delicadeza” de sempre.
Olhamos um para o outro por um tempo.
- Você vem? – Pergunto.
- Ná... não estou com fome, vai lá. Vou ver o que anda rolando na Internet.
Lhe dou um abraço e vou em direção à porta. Me viro e digo:
- Obrigada, viu?
Ele só sorri e pisca.
~
Chego na cozinha e sinto o clima pesado, como tem sido já faz quase um ano. Sento-me a mesa junto aos meus pais e olho ao meu lado aquele lugar vazio.
Minha mãe começa a servir os pratos e talheres, enquanto conversa com meu pai. Entrega os dele, os dela, os meus e os do meu irmão.
Ela vai se dirigindo à mesa, mas meu pai faz uma cara que a faz ficar em silêncio, e logo ela olha para mim, e não sei o que falar. Ela olha o prato e os talheres do meu irmão à mesa, e se assusta.
- Meu Deus, eu podia jurar que ele estava aqui com a gente em casa... – Diz minha mãe.
Meu pai olha para o lado, tentando esconder sua tristeza. Levanto e vou na direção da minha mãe e a abraço.
- Sabe mãe, quem sabe ele não está aqui com a gente hoje? – Digo e minha mãe chora, mas não de tristeza. De saudade somente, talvez.
Tem sido um ano difícil desde que ele morreu, mas vou seguir o seu conselho. Somente me importar com as memórias do que tivemos juntos, que ficarão comigo pra sempre. E não sofrer por mais nada.
Afinal, a vida é o que tem que ser, não é mesmo?