domingo, 29 de janeiro de 2012

Herói - Parte 1

Ainda estou assimilando direito o que aconteceu. Eu nunca acreditei que gente vestindo roupa parecida com roupa de mergulho e uma capa existisse de verdade. Aliás, isso por si só não seria problema, a coisa é que não achei que existissem pessoas que de fato saíssem por aí de noite procurando bandidos para brigar.

Mas não estou em posição de julgar isso agora. Uma dessas pessoas acabou de salvar a minha vida.

- Tudo bem com você, jovem? – Disse o cara negro estendendo sua mão para eu me apoiar e levantar do chão.
- Tá tudo bem – Ignoro a ajuda e me levanto por conta.

Olho em volta e vejo os dois homens caídos. Me viro ao “herói” e percebo que está segurando o braço direito com a mão.

- Se machucou? – Pergunto.
- Não, tá tudo bem. Só doeu pra car... – Começa a falar, esquecendo que está fantasiado para o Halloween – Digo, está tudo bem. E você?
- Nada de mais. Aliás, valeu... Você parece um doido mas me salvou.
- Isso é um elogio?

Faço uma cara de filho da mãe e não respondo nada.

- O que vai fazer com eles? – Pergunto.
- Devia fazer alguma coisa? – Olha para os caras caídos com uma feição de que nunca havia pensado nisso.
- É a primeira vez que você faz isso, cara? – Pergunto.
- É... bom... Ah, dane-se. Tá tão na cara assim?
- Muito.

Ficamos por alguns segundos em um silêncio constrangedor, olhando para os bandidos, ainda gemendo no chão.

O “herói” põe a mão no rosto e balança a cabeça negativamente, em um facepalm épico de se ver. Pára e olha pra mim, e diz:

- Ei cara, quer uma carona?

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Saudade

Passei o dia inteiro no meu quarto, procurando me entreter. Agora, perto do seu fim, vasculho o meu computador buscando algo novo para assistir ou alguém na Internet pra conversar. Infelizmente, não tenho êxito.

Passo então a ouvir uma música que lembra ele. Começo a chorar já na introdução.

- Meu Deus, não sei como vou aguentar isso... – Acabo dizendo para eu mesma.

Coloco a mão no meu rosto e tento prestar atenção na letra da música. É triste pelo significado, mas feliz pelo ritmo e melodia, o que se torna uma cereja num bolo recheado de ironia.

A música acaba. Respiro fundo, e um turbilhão de coisas tentam surgir ao mesmo tempo na minha cabeça.

Porém, tudo congela no momento que sinto alguém do meu lado e vejo de canto de olho uma mão encostar no meu ombro.

E por fim uma voz, dizendo:

- Ah, deixa disso.

Grito, tão alto que acaba por não sair som algum. Barulho mesmo é o que faço ao pular de cama e cair sentada no chão.

- Seu idiota, porque não me avisou que estava aqui?!
- Desculpa, não resisti – Diz o meu irmão, segurando um riso maldoso.
- O que quer aqui? – Questiono.
- Não posso vir ver minha irmã sem motivo?

Me preparo para o xingar por algum motivo, mas ele me interrompe antes d’eu começar:

- E nem posso somente saber por que ela está chorando?

Silêncio. Ele se senta na minha cama e estende a sua mão para eu levantar e sentar ao seu lado.

- Ah, desculpa... – Digo, ao perceber que ele não é o problema.
- Tudo bem... Bom, me diga então... Quem é ele?

Me surpreendo.

- Como você sabe? O que você sabe? – Pergunto.
- Eu não sei... Talvez eu só conheça você um pouco...

Olho para o chão.

- Curioso, você nunca pareceu se importar – Digo, me arrependendo pelo tom.
- Faz diferença agora? – Pergunta.

De fato, não faz.

- Bom... é só um cara da escola – Resolvo me abrir.
- E o que ele fez? Ou não fez?
- Ele vai embora. Vai servir no exército, vai ficar pelo menos um ano e meio em outra cidade.
- Sinto muito... Mas me diga, o que te incomoda mais, nisso tudo? Afinal, ele é só um cara da escola...

Engraçado, mas isso me faz olhar a coisa por um outro ângulo. Nem sei o que responder, e ele percebe isso na minha cara. E prossegue:

- Aliás, o que você mais vai sentir saudade, dele ou do que vocês tiveram?

Preciso ser sincera.

- Do que tivemos... Eu nunca achei que seria pra sempre com ele mesmo... É que...
- É que o que?
- Eu só queria que tivesse sido diferente.
- As coisas são o que tem que ser, você sabe disso.

Olho para ele e nem preciso dizer “desculpa” ou “obrigada”. Engraçado, pois nunca tivemos afinidade para entender as palavras um do outro sem que tenham sido ditas.

- Sabe, não há porque ter saudade do que sempre vai estar com você. Essas memórias sempre vão ficar aí.
- É, você tá certo...

Percebo mesmo o quanto tudo isso é realmente algo pequeno.

- Agora me diz, como vão o resto das coisas? A escola, o trabalho?
- Ah, a mesma monotonia de sempre.
- E isso é bom ou ruim?
- Acho que é bom. Quer dizer, está tudo voltando ao normal, sabe...
- Tem sido um ano difícil pra você, né?
- É, mas tá melhorando.
- Desculpa por isso.
- Ah, relaxa... tudo é o que tem que ser, não é mesmo?

Ele sorri.

Somos interrompidos por um barulho no corredor, e logo depois batidas na porta.

- O jantar tá pronto – Grita nossa mãe, batendo com força na porta com a mesma “delicadeza” de sempre.

Olhamos um para o outro por um tempo.

- Você vem? – Pergunto.
- Ná... não estou com fome, vai lá. Vou ver o que anda rolando na Internet.

Lhe dou um abraço e vou em direção à porta. Me viro e digo:

- Obrigada, viu?

Ele só sorri e pisca.

~

Chego na cozinha e sinto o clima pesado, como tem sido já faz quase um ano. Sento-me a mesa junto aos meus pais e olho ao meu lado aquele lugar vazio.

Minha mãe começa a servir os pratos e talheres, enquanto conversa com meu pai. Entrega os dele, os dela, os meus e os do meu irmão.

Ela vai se dirigindo à mesa, mas meu pai faz uma cara que a faz ficar em silêncio, e logo ela olha para mim, e não sei o que falar. Ela olha o prato e os talheres do meu irmão à mesa, e se assusta.

- Meu Deus, eu podia jurar que ele estava aqui com a gente em casa... – Diz minha mãe.

Meu pai olha para o lado, tentando esconder sua tristeza. Levanto e vou na direção da minha mãe e a abraço.

- Sabe mãe, quem sabe ele não está aqui com a gente hoje? – Digo e minha mãe chora, mas não de tristeza. De saudade somente, talvez.

Tem sido um ano difícil desde que ele morreu, mas vou seguir o seu conselho. Somente me importar com as memórias do que tivemos juntos, que ficarão comigo pra sempre. E não sofrer por mais nada.

Afinal, a vida é o que tem que ser, não é mesmo?

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Silêncio

Chego em casa quase que correndo em desespero. Subo as escadas do conjunto onde moro e chego quase tropicando no meu apartamento, o 23B. Abro a porta e sinto o ar preencher meus pulmões e aquela sensação claustrofóbica indo embora.

Não há mais sons, vozes, conversas, pessoas. Nada. Só eu mesmo; Aqui e agora.

Ando pelo corredor da entrada enquanto deixo a música do silêncio aquecer o meu corpo e revigorar o meu espírito.

- Olá – Diz “ele”, sentado ao sofá. Sou eu lá, porém usando uma máscara branca cobrindo meu rosto e utilizando sempre certo ar de deboche e sarcasmo.
- Oi – Respondo.
- Cansado?
- Muito.

Estou mesmo. Esses quatro dias me esgotaram, quando na verdade aos olhos de qualquer um deveriam ser revigorantes. Viajei com minha noiva e sua família. Foi divertido e aconchegante.

Para eles.

Perdi as contas de quantas vezes eu dizia que precisava ir no banheiro só pra poder ficar sozinho e gritar em silêncio. Até me recompor e reiniciar o ciclo masoquista.

- Por que você insiste nisso? – Pergunta meu outro eu mascarado.
- No que?
- Tentar se parecer com eles. Você sabe que você não é.
- Eu tenho que ser alguma coisa.
- Por que não pode ser você?

Touché.

- Porque não gosto da ideia da solidão.
- Você tem a mim. Por que não pode ser eu, então?
- Não sei se estou preparado ainda.

Ele se levanta e se aproxima.

- Preparado pra ser eu?
- Não, para deixar de ser eu. 

E finalmente fiquei sozinho.
 

Quem viu o vento?

Olá!

Esse é um espaço onde pretendo escrever meus rascunhos de contos (talvez não só contos, mas inicialmente sim), sejam eles contos que escrevi mas estavam engavetados, coisas randômicas que me surgem ou coisas legais que penso mas não se encaixam nos moldes do Blog Noogênese.

Falando no Noogênese, aviso que esse Blog não tem relação com o Universo de lá. Talvez alguma coisa interessante que surgir aqui extravase para lá, mas não estou pensando nisso ao criar esse espaço :)

Seja você um leitor do Noogênese, alguém que achou os Blogs pela Internet ou meu amigo ou conhecido, espero que goste!


E fica a pergunta... Quem viu o vento? :)


Um abraço